Uma movimentação de bastidores promete agitar a política e a geografia da região nos próximos meses. A Prefeitura de Serra Negra oficializou um pedido formal para retomar as discussões sobre a revisão dos limites territoriais com Itapira. O alvo central da proposta é o Bairro dos Leais, uma área que atualmente pertence ao mapa itapirense, mas que a cidade vizinha argumenta já estar administrativamente e logisticamente conectada à sua estrutura.
O movimento ganhou contornos oficiais no início deste mês de agosto, quando o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Serra Negra, Wanderlei Lona, esteve em Itapira para entregar o ofício nas mãos do secretário de Obras local, Antônio Carlos Andrigo Ferreira. O documento, assinado pelo prefeito serrano Elmir Chedid, é endereçado diretamente ao prefeito Antônio Hélio Nicolai – Toninho Bellini -, e propõe desengavetar estudos técnicos e reuniões entre as duas administrações.
Argumentações serranas
Para fundamentar a transferência do Bairro dos Leais, o Poder Público de Serra Negra sustenta que a realidade prática dos moradores já desmanchou as fronteiras oficiais. De acordo com a justificativa descrita no ofício, praticamente a totalidade das propriedades daquela localidade está registrada no Cadastro Ambiental Rural (CAR) como pertencente a Serra Negra, o que comprovaria o vínculo territorial e econômico com o município vizinho.
Outro ponto de forte peso no documento é a logística e o acesso a serviços básicos. A prefeitura serrana destaca que a grande distância entre o Bairro dos Leais e o centro administrativo de Itapira penaliza a população, dificultando o acesso a atendimentos municipais cotidianos. Em contrapartida, a proximidade com a estrutura de Serra Negra garantiria uma assistência mais ágil na saúde, educação e infraestrutura. Sob a ótica de Serra Negra, a mudança traria “segurança jurídica” e eficiência de gestão para quem vive na área.
Posição itapirense
Questionada pela reportagem do Tribuna de Itapira sobre a possibilidade de ceder parte de seu território, a Prefeitura de Itapira adotou uma postura cautelosa. Em nota enviada, o município informou que a proposta encaminhada por Serra Negra está passando por uma “análise técnica e administrativa minuciosa” conduzida pelos setores competentes, avaliando todos os impactos cadastrais e estruturais que a perda da área traria.
A administração local enfatizou que, neste estágio, não há nenhum posicionamento definitivo ou decisão tomada. A prefeitura itapirense sequer confirmou a reportagem o tamanho exato em quilômetros quadrados da área pretendida por Serra Negra, justificando que a dimensão real e os limites exatos do perímetro ainda dependem de levantamentos topográficos e checagem de mapas oficiais.
A administração disse não ter estipulado nenhum prazo para a conclusão dos estudos ou para dar uma resposta final à cidade vizinha. A nota conclui reforçando que qualquer manifestação formal só ocorrerá após o término dos laudos técnicos e o cumprimento rigoroso dos ritos e procedimentos legais que regem a alteração de perímetros municipais no Estado.
A continuidade das reuniões técnicas deve ditar o ritmo desse impasse, enquanto os moradores do Bairro dos Leais aguardam para saber em qual mapa urbano vão acordar no futuro.
O “jogo” econômico e turístico
Por trás das justificativas oficiais de facilidade logística e assistência comunitária, analistas políticos e fontes de mercado consultados pela reportagem apontam que a disputa pelo Bairro dos Leais envolve cifrões pesados e interesses estratégicos de expansão.
Serra Negra é uma Estância Turística consolidada e a incorporação definitiva do bairro traria para dentro de seu mapa oficial importantes ativos econômicos em pleno funcionamento.
A região abriga empreendimentos de destaque no turismo rural e de isolamento, como pousadas, sítios e produtores de cafés e integrantes de rotas gastronômicas de queijos e vinhos. Ao assumir formalmente o território, Serra Negra passaria a administrar esses destinos diretamente em seus roteiros oficiais de divulgação, atraindo novos investimentos e impulsionando a arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS).
Além da vitrine turística, a regularização fundiária abriria caminho para um forte boom imobiliário. O relevo montanhoso dos Leais é altamente atrativo para a construção de condomínios e chácaras de veraneio voltadas ao público de alto padrão de Campinas e da Grande São Paulo.
A chancela do nome de uma estância hidromineral em um catálogo de vendas costuma agregar mais valor de mercado às propriedades rurais do que se estivessem listadas em uma cidade como Itapira, que infelizmente não conseguiu se firmar como polo turístico e comercial.
Para o município serrano, significa garantir a arrecadação direta do Imposto Territorial Rural (ITR), futuras taxas de IPTU sobre novos loteamentos e a fatia do ICMS gerada pelo forte agronegócio artesanal local.
Porém, cabe destacar que, Serra Negra já aproveita a região como atrativo turístico, já tendo oficializado por lei o Bairro dos Leais como parte de sua rota de turismo rural.
O pedido de revisão fundamenta-se em uma integração prática já consolidada em termos jurídicos e turísticos. Desde 2018, vigora em Serra Negra a Lei Ordinária nº 4069, que instituiu a ‘Rota Turística do Bairro dos Leais’. O texto abrange vias públicas daquela localidade e integra estabelecimentos locais aos circuitos promocionais oficiais da estância hidromineral, cenário que agora embasa os estudos das duas administrações municipais para a adequação das divisas oficiais.

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